The Mosquito Bowl: Peter Berg e a adaptação do drama sobre futebol americano na Segunda Guerra Mundial - Netflix Tudum

Capa de livro com estampa camuflada, que mostra uma mão segurando uma bola de futebol americano, cercada por cápsulas de munição espalhadas sobre um fundo marrom, combinando elementos esportivos e militares.
Do livro à tela

Para Peter Berg, ‘The Mosquito Bowl’ mostra que não há glória na guerra

Cineasta adapta o livro de Buzz Bissinger sobre futebol americano e fuzileiros da Segunda Guerra.

Texto original de Jenny Changnon
Ilustração de Ibrahim Arafath
21 de out. de 2026

O cineasta Peter Berg busca autenticidade em tudo o que faz. Seja ao retratar os épicos altos e baixos do futebol americano no ensino médio ou a luta de soldados pela sobrevivência nos campos de batalha do Pacífico, o diretor se dedica a mostrar a realidade sem retoques.

Ainda assim, ele está sempre aberto ao inesperado, uma característica útil na hora de lidar com cenários grandiosos e comandar equipes e elencos numerosos.

“Para mim, a ideia de flertar com o caos é uma estratégia que aplico a todo o processo de produção cinematográfica. Você vai gravar uma cena achando que tem um plano, mas as coisas começam a mudar muito rápido. Os atores começam a atuar e a se comportar como seres humanos, mas não necessariamente da maneira que você imaginava", afirma o diretor.

“O clima muda, milhões de coisas acontecem o tempo todo. Lutar contra isso pode acabar gerando frustração, porque boa parte dessas coisas está fora de controle. Tenho tentado abandonar a ideia de controlar tudo e, além disso, também busco permitir que as coisas realmente saiam do controle.” 

Peter Berg (diretor) orienta Tom Francis e os figurantes durante a preparação de uma cena de futebol americano universitário em ‘The Mosquito Bowl’.

Peter Berg e Tom Francis

Foto de Kane Skennar

Essa filosofia fica evidente no poderoso The Mosquito Bowl, seu filme mais recente, que examina a brutalidade da guerra a partir de um episódio inesperado que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial.

Baseado no livro The Mosquito Bowl: A Game of Life and Death in World War II, best-seller do New York Times escrito por Buzz Bissinger, o drama está ambientado no ano de 1941. John McLaughry (Nicholas Galitzine), Tony Butkovich (Ray Nicholson), Bob Bauman (Bill Skarsgård) e Dave Schreiner (Tom Francis) são jogadores universitários de futebol americano e milhões de jovens como eles estão se voluntariando ou são convocados para lutar na Segunda Guerra Mundial.

Os quatro atletas ingressam no Corpo de Fuzileiros Navais e seguem para Parris Island, uma base de recrutamento e treinamento situada nos arredores de Beaufort, na Carolina do Sul. Lá, antes de serem enviados ao exterior para os combates do Pacífico, descobrem que seus corpos servem para muito mais do que a prática esportiva.

Na véspera de Natal de 1944, com a Batalha de Okinawa se aproximando, os homens do 4º e do 29º regimentos já passaram por transformações irreversíveis devido a tudo o que testemunharam e vivenciaram nos combates. O moral das tropas está mais baixo do que nunca. Por isso, quando o alto comando decide que os dois regimentos, repletos de atletas, poderiam ajudar a levantar o ânimo dos soldados, os jovens organizam sua própria partida de futebol americano — o esporte mais emblemático dos Estados Unidos. 

Soldados com uniformes de época jogam futebol americano em um campo de terra, cercado por barracas militares e outros soldados que acompanham a partida.

Nicholas Galitzine

Foto de Kane Skennar

Peter Berg já tem experiência em contar histórias de esportes e combates. Seu filme O Grande Herói, de 2013, retratou uma missão dos oficiais da Marinha dos Estados Unidos durante a guerra no Afeganistão. Por isso, adaptar o livro de Buzz Bissinger talvez tenha sido uma escolha natural para o diretor.

Os dois homens, aliás, são primos e já haviam estabelecido uma parceria criativa quando Peter adaptou Friday Night Lights: A Town, a Team, and a Dream, livro de Buzz que acompanha de perto o universo do futebol americano em uma cidade pequena.

A obra deu origem a um filme de sucesso e a uma longeva série de televisão. Com The Mosquito Bowl, o cineasta teve a oportunidade de mergulhar ainda mais fundo no universo que buscava retratar na tela.

“Gosto de um estilo próximo ao que chamam de ‘cinéma vérité’. Gosto que as coisas pareçam reais. Às vezes, as pessoas dizem que assistiram a um filme meu e tiveram a sensação de que assistiam a um documentário, mas não é o caso”, explica.

O diretor passou uma temporada em Parris Island, fazendo pesquisas para o projeto. Hospedado perto de uma base aérea, ele passava os dias na companhia dos recrutas do Corpo de Fuzileiros Navais. “Depois, voltava para meu quarto, lia o livro do Buzz, sentava na escrivaninha minúscula e começava a escrever o roteiro. Acho que chamam isso de ‘esprit de corps’, o tal espírito de equipe. É algo presente em todas as pessoas que você encontra naquela base. Uma determinação clara e consciente que é muito, muito inspiradora”, ele completa.

Peter e o elenco desenvolveram um forte espírito de companheirismo durante a preparação física para The Mosquito Bowl, etapa que exigiu uma espécie de viagem no tempo — afinal, precisaram estudar uma época em que o futebol americano era praticamente irreconhecível em comparação ao esporte atual.

“Se você assistir a uma partida de futebol americano dos anos 1940, vai perceber que o jogo era muito diferente do que é hoje. Precisávamos aprender sobre as jogadas, o estilo, como os equipamentos eram utilizados e todos os elementos que definiam a realidade do esporte naquela década. E foi isso que fizemos. Para mim, era muito importante que os atores entendessem que o futebol americano dos anos 1940 é o pai, talvez até mesmo o avô, do esporte que temos hoje. O espírito de irmandade, a agressividade com que se jogava e o desempenho atlético da época talvez não eram exatamente como são hoje, mas existe uma conexão”, explica o diretor.

Para ajudar o elenco a compreender as nuances do esporte, Peter contou com a participação de nomes que se destacam no futebol americano atual, incluindo Christian McCaffrey, que joga na posição de running back do San Francisco 49ers. 

Em uma foto dos bastidores de ‘The Mosquito Bowl’, Ray Nicholson como Tony Butkovich, Tom Francis como Dave Schreiner, Bill Skarsgård como Bob Bauman e Nicholas Galitzine como John McLaughry aparecem uniformizados em meio a um cenário de guerra, apoiados em um tanque militar.

Ray Nicholson como Tony Butkovich, Tom Francis como Dave Schreiner, Bill Skarsgård como Bob Bauman e Nicholas Galitzine como John McLaughry.

Foto de Kane Skennar

Retratar com fidelidade a violência extrema no teatro de operações do Pacífico também era fundamental para Peter. Qualquer representação que suavizasse a realidade enfrentada pelos soldados não faria justiça à história que ele queria contar. 

“The Mosquito Bowl não é uma declaração patriótica de amor às Forças Armadas dos Estados Unidos. É um estudo sobre os horrores da guerra e da violência e sobre o que acontece quando homens mais velhos, líderes políticos, declaram guerra. Afinal de contas, quem vai lutar em nome deles? Quais são os custos dessas decisões? É isso que orienta minha abordagem sobre a violência. A intenção é sempre provocar uma reflexão sobre o que a guerra realmente significa. É um lembrete de que não há glória na guerra”, explica o cineasta.

Peter coloca o público ao lado dos personagens enquanto eles enfrentam situações aterrorizantes e, por fim, a Batalha de Okinawa, que registrou mais de 200 mil mortes. 

Ao longo do filme, o estilo característico do diretor faz com que seja impossível ignorar os traumas incessantes vividos pelos soldados. “A guerra é um inferno. É uma coisa horrível. Ela representa o fracasso da diplomacia e é consequência desse fracasso. A diplomacia deveria ser valorizada, respeitada e utilizada muitas e muitas vezes antes que uma guerra fosse declarada”, afirma Peter.

“No caso de The Mosquito Bowl, a guerra é declarada, e Bob Bauman, David Schreiner, Tony Butkovich e John McLaughry vão ao combate. Eles fazem isso por suas famílias e por seu país. Assim como acontece com os fuzileiros navais de Parris Island hoje. Quando nossos líderes declaram guerra, esses homens e mulheres partem para lutar. Acho que temos a responsabilidade de entender o que estamos pedindo que essas pessoas façam, para onde estamos pedindo que elas se desloquem, e também temos a responsabilidade de cuidar delas quando voltarem para casa”, completa.

Para Peter, assumir a responsabilidade de levar essa história às telas significava jamais recuar nem desviar o olhar da realidade devastadora que esses homens enfrentaram.

Baseado em livro

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